Quem realmente ganha e quem perde com a Reforma Tributária?

Uma das perguntas mais frequentes sobre a Reforma Tributária é bastante direta:

“Afinal, minha empresa pagará mais ou menos impostos?”

Infelizmente, não existe uma resposta única.

Embora a proposta tenha como objetivo simplificar o sistema tributário brasileiro, seus efeitos serão bastante diferentes entre os diversos setores da economia.

Enquanto algumas empresas poderão reduzir custos tributários, outras precisarão rever completamente sua estrutura de preços, margens e modelo de negócios.

A boa notícia é que quem compreender essas mudanças com antecedência terá muito mais tempo para se adaptar.


A Reforma não foi criada para aumentar a arrecadação

Um dos princípios da Reforma Tributária é a chamada neutralidade da arrecadação.

Na teoria, isso significa que o Governo pretende arrecadar aproximadamente o mesmo valor que arrecada hoje.

O problema é que essa neutralidade ocorre no conjunto da economia, e não empresa por empresa.

Na prática, haverá inevitavelmente:

  • empresas que pagarão menos;
  • empresas que pagarão praticamente o mesmo;
  • empresas que terão aumento significativo da carga tributária.

Os setores que tendem a ser beneficiados

Embora cada caso deva ser analisado individualmente, alguns segmentos possuem características que podem favorecer uma redução da carga efetiva.

Entre eles destacam-se:

  • indústria de transformação;
  • empresas exportadoras;
  • cadeias produtivas longas;
  • empresas que acumulavam créditos difíceis de recuperar;
  • organizações que realizam muitas aquisições tributadas.

O principal motivo é a ampliação do sistema de créditos.

Quanto maior a quantidade de créditos aproveitáveis, menor tende a ser o imposto efetivamente suportado.


Os setores que podem enfrentar aumento da carga

Diversas empresas prestadoras de serviços demonstram preocupação com a Reforma.

Isso ocorre porque muitos serviços possuem:

  • pouca aquisição de insumos;
  • reduzido volume de créditos;
  • alta participação da folha de pagamento no custo.

Como salários não geram créditos de CBS e IBS, empresas intensivas em mão de obra poderão sentir um aumento relevante na tributação efetiva.

Entre os segmentos frequentemente citados estão:

  • consultorias;
  • escritórios de advocacia;
  • empresas de tecnologia;
  • clínicas médicas;
  • academias;
  • escolas particulares;
  • empresas de serviços em geral.

Cada caso, entretanto, dependerá do regime tributário adotado e das regras específicas aplicáveis.


O fim dos benefícios fiscais regionais

Outro grupo que poderá sentir mudanças importantes são as empresas instaladas em regiões beneficiadas por incentivos fiscais estaduais.

Com a substituição gradual do ICMS pelo IBS, a chamada “guerra fiscal” tende a desaparecer.

Isso significa que muitas decisões futuras sobre localização industrial passarão a considerar fatores como:

  • logística;
  • disponibilidade de mão de obra;
  • infraestrutura;
  • proximidade do mercado consumidor.

A tributação deixará de ser, em muitos casos, o principal fator de decisão.


O impacto será diferente dentro do mesmo setor

Mesmo empresas que atuam exatamente no mesmo mercado poderão experimentar resultados completamente diferentes.

Imagine duas distribuidoras de alimentos.

A primeira possui:

  • excelente gestão fiscal;
  • processos totalmente digitalizados;
  • compras bem documentadas;
  • forte controle de créditos.

A segunda apresenta:

  • documentação incompleta;
  • controles manuais;
  • falhas cadastrais;
  • dificuldades na apuração tributária.

Embora vendam produtos semelhantes, a primeira provavelmente conseguirá aproveitar muito mais créditos tributários.

Consequentemente, sua carga efetiva poderá ser menor.

Isso mostra que a eficiência administrativa passará a representar uma vantagem competitiva ainda maior.


A gestão financeira ganhará importância

A Reforma Tributária deixará de ser um assunto exclusivamente do departamento fiscal.

Ela afetará diretamente:

  • formação de preços;
  • fluxo de caixa;
  • margem de contribuição;
  • capital de giro;
  • planejamento financeiro;
  • negociação com fornecedores;
  • relacionamento com clientes.

Empresas que continuarem tratando os tributos apenas como uma obrigação acessória poderão perder competitividade.


O momento de agir é agora

Embora a implantação completa aconteça de forma gradual até 2033, as decisões estratégicas precisam começar muito antes.

As empresas devem aproveitar o período de transição para:

  • revisar processos;
  • simular cenários;
  • avaliar impactos financeiros;
  • atualizar sistemas;
  • treinar equipes;
  • adaptar contratos comerciais.

Quem iniciar esse trabalho apenas quando as novas regras estiverem plenamente em vigor provavelmente terá custos maiores e menos capacidade de reação.


Conclusão

A principal mudança trazida pela Reforma Tributária não será apenas a substituição de impostos.

Ela alterará a forma como as empresas administram seus negócios.

Mais do que perguntar se haverá aumento ou redução da carga tributária, a pergunta correta passa a ser:

“Minha empresa está preparada para operar no novo modelo tributário?”

Essa preparação poderá representar a diferença entre ganhar competitividade ou perder espaço no mercado durante a maior transformação tributária das últimas décadas.


Próximo artigo da série

Artigo 4 – O fim da guerra fiscal: como a tributação no destino mudará a estratégia das empresas

Nesse artigo mostraremos por que os incentivos fiscais estaduais perderão importância, como funcionará a tributação no destino e quais serão os impactos para a localização de indústrias, centros de distribuição e operações comerciais.

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