CBS e IBS: quais impostos acabam e o que muda para as empresas

A maior reforma tributária das últimas décadas já começou

Durante décadas, empresários brasileiros conviveram com um dos sistemas tributários mais complexos do mundo. ICMS, ISS, PIS, COFINS, IPI, inúmeras obrigações acessórias, diferentes legislações estaduais, benefícios fiscais, regimes especiais e uma infinidade de interpretações tornaram o ambiente de negócios extremamente oneroso.

Segundo estudos do Banco Mundial, o Brasil esteve entre os países que mais consomem tempo para cumprimento das obrigações tributárias. Em muitas empresas, centenas de horas por ano são dedicadas exclusivamente ao atendimento das exigências fiscais.

Esse cenário começa a mudar.

A Reforma Tributária aprovada por meio da Emenda Constitucional nº 132/2023 inaugura um novo modelo de tributação sobre o consumo, baseado no conceito de Imposto sobre Valor Agregado (IVA), utilizado em mais de 170 países.

Embora a transição seja gradual, as decisões que as empresas tomarem nos próximos anos poderão influenciar diretamente sua competitividade na próxima década.

Neste primeiro artigo da série, vamos entender quais impostos serão substituídos, como funcionarão a CBS e o IBS e quais serão os primeiros impactos para a gestão empresarial.

O objetivo da Reforma Tributária

Ao contrário do que muitos imaginam, a principal finalidade da Reforma Tributária não foi aumentar ou reduzir a arrecadação.

O grande objetivo foi simplificar o sistema tributário brasileiro.

Hoje convivemos com diferentes tributos incidindo sobre a mesma operação, cada um possuindo:

  • regras próprias;
  • bases de cálculo distintas;
  • regimes especiais;
  • diferentes formas de creditamento;
  • milhares de legislações estaduais e municipais.

O resultado é conhecido por qualquer empresário: elevado custo administrativo, insegurança jurídica e grande dificuldade para planejar investimentos.

O novo sistema procura reduzir essa complexidade.

Quais impostos serão substituídos?

Uma das principais mudanças será a substituição de cinco tributos por dois novos impostos.

A CBS

A Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) será de competência da União.

Ela substituirá:

  • PIS;
  • COFINS;
  • IPI (ressalvadas exceções previstas na legislação, especialmente relacionadas à Zona Franca de Manaus).

Na prática, as empresas deixarão de realizar apurações separadas desses tributos para trabalhar com um único imposto federal sobre o consumo.

O IBS

O Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) substituirá os principais tributos estaduais e municipais.

Serão incorporados:

  • ICMS;
  • ISS.

Isso significa que Estados e Municípios continuarão arrecadando tributos sobre o consumo, porém por meio de um modelo unificado, com regras nacionais.

Antes e depois da Reforma

Sistema AtualNovo Sistema
PISCBS
COFINSCBS
IPICBS*
ICMSIBS
ISSIBS

* Observadas as exceções previstas na legislação.

À primeira vista, pode parecer apenas uma redução do número de impostos.

Na realidade, trata-se de uma mudança muito mais profunda.

O conceito de IVA

O novo modelo brasileiro foi inspirado no IVA – Imposto sobre Valor Agregado.

O princípio é relativamente simples.

Cada empresa paga imposto apenas sobre o valor que efetivamente adiciona ao produto ou serviço.

Imagine uma cadeia simplificada.

Um frigorífico vende carne para um restaurante.

O restaurante prepara refeições.

A refeição é vendida ao consumidor.

Cada empresa recolhe tributos apenas sobre o valor agregado naquela etapa da cadeia.

Esse sistema reduz significativamente a incidência de “imposto sobre imposto”, um dos principais problemas do modelo atual.

A não cumulatividade será ampliada

Hoje existe enorme discussão sobre quais despesas geram crédito de PIS, COFINS ou ICMS.

Diversas empresas acabam discutindo essas questões judicialmente.

Com a Reforma Tributária, o conceito de crédito tende a se tornar muito mais amplo.

Em linhas gerais, sempre que uma empresa adquirir bens ou serviços utilizados em sua atividade econômica e sobre eles incidirem CBS e IBS, haverá possibilidade de aproveitamento do crédito correspondente, respeitadas as hipóteses previstas na legislação.

Essa mudança reduz distorções e aumenta a neutralidade econômica do sistema.

Tributação no destino

Outra mudança estrutural diz respeito ao local onde o imposto será arrecadado.

Hoje, boa parte da tributação ocorre na origem.

Isso permitiu, durante décadas, a chamada guerra fiscal entre Estados.

Com o IBS, a arrecadação será gradualmente direcionada ao local onde ocorre o consumo.

Essa alteração reduz incentivos artificiais para localização de empresas e tende a tornar as decisões de investimento mais baseadas em fatores econômicos do que em benefícios fiscais.

O impacto sobre a formação de preços

A Reforma Tributária obrigará praticamente todas as empresas a revisarem seus modelos de precificação.

Hoje muitas organizações calculam seus preços considerando diferentes tributos, regimes especiais, incentivos fiscais e regras específicas para cada Estado.

No novo modelo, a lógica será diferente.

Empresas precisarão revisar:

  • estrutura de custos;
  • margem de contribuição;
  • rentabilidade por produto;
  • contratos comerciais;
  • políticas de descontos;
  • formação de preços.

Quem não revisar sua precificação poderá perder competitividade ou reduzir sua margem de lucro sem perceber.

A tecnologia deixará de ser opcional

Outro aspecto frequentemente subestimado é o impacto sobre os sistemas de gestão.

A correta apuração da CBS e do IBS dependerá de informações fiscais consistentes.

Isso exigirá:

  • ERP atualizado;
  • integração entre faturamento, compras e contabilidade;
  • cadastro correto de produtos;
  • documentos fiscais emitidos sem inconsistências;
  • conciliação permanente entre áreas fiscal e financeira.

Empresas que ainda operam com controles manuais encontrarão dificuldades crescentes.

A contabilidade passa a assumir papel estratégico

Durante muitos anos, a contabilidade foi vista apenas como responsável pelo cumprimento das obrigações legais.

Esse papel muda significativamente.

No novo ambiente tributário, a contabilidade passa a apoiar decisões estratégicas relacionadas a:

  • investimentos;
  • formação de preços;
  • fluxo de caixa;
  • análise de rentabilidade;
  • aproveitamento de créditos;
  • planejamento financeiro;
  • expansão dos negócios.

Mais do que registrar fatos passados, a contabilidade precisará gerar inteligência para orientar decisões futuras.

O período de transição

A mudança não ocorrerá de forma instantânea.

Durante alguns anos, o sistema atual coexistirá com o novo modelo.

Essa convivência exigirá atenção redobrada das empresas.

Será necessário administrar simultaneamente regras antigas e novas, adaptar sistemas, revisar processos e capacitar equipes.

Quanto antes esse trabalho começar, menor será o risco de dificuldades operacionais no futuro.

O que sua empresa deve fazer desde já

Mesmo antes da implementação integral, algumas ações podem ser iniciadas imediatamente.

Faça um diagnóstico tributário

Mapeie os tributos atualmente pagos, identifique benefícios fiscais utilizados e avalie possíveis impactos da nova legislação.

Revise seus processos internos

Verifique se os controles atuais serão suficientes para atender às novas exigências.

Avalie seu ERP

Confirme se o sistema utilizado possui plano de atualização para suportar a CBS e o IBS.

Capacite sua equipe

As áreas fiscal, contábil, financeira, comercial e de tecnologia precisarão compreender as mudanças.

Reavalie sua estratégia financeira

Nos próximos anos, temas como Split Payment, novos créditos tributários e alterações no fluxo de caixa passarão a influenciar diretamente a gestão financeira.

Conclusão

A criação da CBS e do IBS representa muito mais do que a substituição de cinco tributos por dois novos.

Estamos diante de uma transformação estrutural na forma como as empresas brasileiras serão tributadas, administrarão seus créditos fiscais, formarão preços e organizarão seu fluxo financeiro.

Embora a simplificação seja um dos principais objetivos da Reforma Tributária, sua implementação exigirá planejamento, investimento em tecnologia e revisão de processos internos.

As empresas que iniciarem essa preparação com antecedência terão melhores condições de transformar uma obrigação legal em vantagem competitiva.

Nos próximos artigos desta série, aprofundaremos cada uma dessas mudanças e mostraremos, de forma prática, como preparar sua empresa para o novo ambiente tributário.

Checklist para empresários

Antes de encerrar a leitura, responda às seguintes perguntas:

  • Minha empresa conhece os impactos da CBS e do IBS?
  • Nosso ERP está preparado para a Reforma Tributária?
  • Nossa política de preços foi revisada?
  • Conhecemos o impacto da Reforma no capital de giro?
  • Nossa equipe está sendo capacitada para o novo sistema?

Se alguma resposta foi “não”, este é o momento ideal para iniciar o planejamento.

Próximo artigo da série

Artigo 2 – Split Payment: como o novo sistema poderá transformar o capital de giro das empresas

Nesse artigo mostraremos, com exemplos financeiros, por que muitos especialistas consideram o Split Payment a mudança de maior impacto da Reforma Tributária para o caixa das empresas.

Sobre o autor

Prof. Dr. Antonio André Neto
Consultor em Estratégia, Controladoria, Finanças e Gestão Empresarial. Atua há mais de três décadas assessorando empresas na tomada de decisões estratégicas, governança corporativa e planejamento financeiro.

Sobre o Meu Contador Prime

O Meu Contador Prime oferece soluções em contabilidade consultiva, planejamento tributário, controladoria e gestão financeira, ajudando empresários a transformar informações contábeis em decisões estratégicas.

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